Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

E o direito a viver?

 

Eluana Englaro morreu. Apesar dos inúmeros apelos de todo o mundo, o pai da italiana que estava há 17 anos em estado vegetativo persistente conseguiu que na clínica La Quiete, em Udine, deixassem de alimentar artificialmente a filha. Eluana resistiu apenas 3 dias.

O debate está lançado. E, com a proposta feita pela Associação Portuguesa de Bioética para a realização de um referendo nacional sobre a prática da eutanásia, em Portugal também.

Apesar das profundas reflexões éticas que esta questão implica, entendo que a vida é um bem supremo que, em circunstância alguma, poderá estar dependente da decisão de outros. Dir-me-ão que alguém que está em estado vegetativo não está a viver condignamente e que o sofrimento que esse estado implica para o próprio e para a família é insuportável e desumano. Acredito que sim e não ouso sequer questionar esse sofrimento, mas será que é legítimo acabar com a vida de uma pessoa para diminuir o seu sofrimento e de outros?

Nesse caso, estaremos nós a caminhar para a tal "sociedade perfeita" onde não são permitidos deficientes, doentes e sofrimentos e onde tudo é permitido em nome de uma suposta felicidade?

Oiço falar em "direito a morrer", mas pergunto: e o direito a viver? Será que, com a prática da eutanásia, estaremos à procura da perfeição e da felicidade plena? Mas será que elas existem? Ou será esta mais uma "busca do santo graal" que, no fundo, não passa de ficção?...

publicado por Maria Pia às 16:26
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4 comentários:
De Margarida a 10 de Fevereiro de 2009 às 17:33
Perguntas, perguntas...
Dúvidas e receios.
Hesitações e convicções.
Sem aprofundar, assim, pela superfície, o horror ao sofrimento impele-me para o sim à eutanásia.
A paz como luz.
O medo a razão os olhos, a contrair o coração.
O sofrimento de quem amo apavora-me. Mais do que o meu. Muito mais.
E se o meu infligisse sofrimento noutrem? E se não houve mais nada a não ser aguardar pelo tempo?
Dezassete anos de nada. Nada é só a concha com a memória de um espírito.
Não há respostas. Há medo, repito.
E há concepções menos esdrúxulas, como esta, do meu reverenciado 'Grand Seigneur':
http://jansenista.blogspot.com/2009/02/o-que-importa-e-o-sofrimento-morte-e-um.html


De francisco sousa a 12 de Fevereiro de 2009 às 21:57
E se, por absurdo, todos nós, quando a velhice extrema chegasse, pedissemos para ser ligados a máquinas que nos mantivessem vivos artificialmente? E se, por absurdo maior, alguém se esquecesse de nós ligados a essas máquinas? Será que estaríamos ainda por cá daqui por 100, 200 anos?
Será que, como Saramago escreveu, a morte está a ficar intermitente?
No fundo penso que há dignificar a vida, por isso mesmo há situações em que a morte, mesmo assistida, pode ser uma via única! De qualquer forma esta é uma questão muito delicada e que merece profunda reflexão.
Boa noite e obrigado pelo espaço.
Francisco Sousa
De Maria Pia a 13 de Fevereiro de 2009 às 01:47
Caro Francisco, infelizmente os casos de doentes terminais não fazem parte do absurdo, pelo contrário, são bem reais e, com o aumento da esperança de vida e de doenças crónicas, são cada vez mais. Concordo inteiramente consigo quando diz que esta é uma questão muito delicada e que merece profunda reflexão. Mas penso que o debate não deveria ser sobre a eutanásia e sim sobre cuidados paliativos. O Governo deveria preocupar-se em implantar a rede de cuidados paliativos a nível nacional e em informar a população sobre o que são estes cuidados e como estão evoluídos, de forma a minorizar muito o enorme sofrimento do doente. Acredito profundamente que o doente merece dignidade e que acabar-lhe com a vida não é a resposta que um Estado de Direito civilizado deva ter para oferecer ao doente e à sua família.
Portugal foi o primeiro país a abolir a pena de morte. Se a eutanásia for legalizada, será com grande desgosto que assistirei a tamanho retrocesso.
De Francisco Sousa a 13 de Fevereiro de 2009 às 09:37
Cara Maria, de facto tem toda a razão no que respeita aos cuidados paliativos. O governo, o Estado, todos nós, devemos e temos que contribuir para a erradicação do sofrimento! Concordo, outra vez, consigo quando diz que o doente merece toda a diginidade! Concordo em absoluto consigo no que respeita à pena da morte e no orgulho em ter sido o nosso país o primeiro a aboli-la.
Quanto ao resto tenho dúvidas, dúvidas e nenhuma certeza! Não aposso afirmar convictamente que sou favorável à eutanásia, nem o contrário. Como lhe disse é necessária muita reflexão e ponderação, no entanto casos como o da Eluana não deixam de me fazer pensar onde está a dignidade? Em mantê-la artificialmente vegetativa, ou dar-lhe o merecido descanso? Não sei bem, mas tenho dúvidas!
Obrigado pela sua atenção
Bom Dia
Francisco Sousa

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